França suspende importações agrícolas por 1 ano e pressiona por regras no acordo UE-Mercosul, afetando frutas sul-americanas tratadas com pesticidas proibidos
Medida anunciada pelo governo bloqueia abacates, mangas, goiabas e batatas se tratadas com mancozeb, tiofanato-metílico e outros, e aguarda aval da Comissão Europeia
A França decretou a suspensão temporária das importações de certos produtos agrícolas por um ano, como resposta à indignação de parte do setor rural diante do acordo UE-Mercosul.
A medida, anunciada no domingo e formalizada nesta quarta-feira, mira produtos tratados com pesticidas proibidos na União Europeia e visa proteger produtores locais enquanto o tratado segue em discussão.
O anúncio intensificou o debate entre Paris, Bruxelas e países do Mercosul sobre controles sanitários, normas de produção e compensações econômicas para agricultores, conforme informação divulgada pelo g1.
O que a suspensão proíbe e quem será afetado
O decreto proíbe a entrada na França de frutas, verduras e cereais importados que contenham cinco substâncias: mancozeb, tiofanato-metílico, carbendazim, glufosinato e benomil.
Produtos citados pelo governo incluem abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas e batatas, entre outros. Segundo o Ministério da Agricultura francês, a suspensão atinge “principalmente a América do Sul”, embora “não seja um decreto dirigido contra a América do Sul, mas contra qualquer país” que processe frutas e vegetais com essas substâncias.
Processo dentro da União Europeia e prazos
A suspensão temporária de importações, que entrará em vigor na quinta-feira (8) por um período de um ano, deve receber também a aprovação da Comissão Europeia.
Bruxelas tem dez dias para analisar a medida, podendo optar por não se opor e mantê-la em vigor, estendê-la ao resto da UE, ou opor-se à suspensão, segundo explicou o ministério francês.
Reação política e protestos na França
O governo de Emmanuel Macron enfrenta forte pressão do setor agrícola, que tem organizado protestos e bloqueios de estradas com tratores em várias regiões.
Além da pressão nas ruas, há risco político no parlamento. O líder conservador Bruno Retailleau alertou que, se Macron votar a favor do Mercosul, “ele corre o risco de enfrentar uma censura” de seu governo.
Apesar da oposição francesa, a assinatura do tratado poderá ocorrer em 12 de janeiro, caso seja aprovado pela maioria qualificada do Conselho Europeu.
Compensações propostas e preocupações comerciais
Para tentar acalmar agricultores europeus, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs financiamento adicional de cerca de 45 bilhões de euros (283 bilhões de reais) no âmbito da futura Política Agrícola Comum 2028-2034.
Produtores europeus temem uma entrada maciça de carne, arroz, mel e soja do Mercosul, considerados mais competitivos, em troca da exportação de veículos e máquinas europeias para o bloco sul-americano.
O governo francês também enfrenta queixas sobre o manejo da dermatose nodular bovina, e exige medidas sanitárias mais rígidas, incluindo o abate de rebanhos em casos confirmados, tema que alimenta a tensão em torno do acordo UE-Mercosul.
Com prazos curtos e negociações acaloradas, a decisão francesa coloca a Comissão Europeia e os parceiros do Mercosul sob pressão para conciliar regras sanitárias, interesses comerciais e medidas de apoio aos agricultores.