Gisèle Pelicot, 73 anos, encontra novo amor e recomeça após julgar o marido por estupros de dezenas de mulheres, ela afirma, A vida sempre reserva belas surpresas
Em entrevista à BBC e às vésperas de lançar suas memórias, Gisèle Pelicot fala sobre a traição, a ‘descida ao inferno’, a escolha de audiência pública e a reconstrução com Jean-Loup
Gisèle Pelicot, aos 73 anos, diz que a vida trouxe uma surpresa inesperada, um novo amor, depois do julgamento que expôs abusos cometidos por seu ex-marido e por dezenas de homens.
Ela relembra o choque de descobrir vídeos e fotos que documentavam os estupros, as ligações dolorosas para os filhos e a decisão de abrir o julgamento ao público, um gesto que virou símbolo para outras vítimas.
No relato à BBC, e antes da publicação de suas memórias, ela descreve a dor, a coragem de enfrentar a imprensa e a lenta reconstrução da vida, conforme informação divulgada pelo g1.
Como veio à tona a violência e a sensação de traição
Gisèle conta que, no início, algo mudou em uma ida à delegacia, quando um policial lhe mostrou imagens que ela não reconheceu, e então, “algo explodiu dentro de mim”, “Foi como um tsunami.”
Na ocasião, a polícia informou que ela foi repetidamente estuprada por dezenas de homens, com vídeos catalogados no disco rígido do marido, e a orientou a não ficar sozinha após ouvir a notícia.
O impacto foi imediato e profundo, e ela define o momento como uma verdadeira “descida ao inferno”, expressão que usa para descrever o início da sua descoberta e do trauma familiar.
O peso das revelações para a família
A comunicação da verdade aos três filhos foi descrita por Gisèle como “a experiência mais difícil da sua vida”. Em especial, ela recorda, “Ouvi minha filha gritar. Era quase desumano”, reação que ilustra o choque que se instalou na família.
Os filhos se reuniram em Mazan, e juntos destruíram ou se desfizeram de objetos e álbuns da vida em família, numa tentativa de apagar vestígios do pai. A mãe de Gisèle também assistiu ao sofrimento, enquanto a família buscava reconstruir um cotidiano marcado pela perda.
Mesmo com conflitos pessoais, Gisèle tenta restaurar laços, e diz que ela e a filha estão trabalhando para “trazer paz uma à outra” e seguir um caminho de cura.
O julgamento, a decisão de abrir as audiências e as condenações
Por lei, vítimas de estupro na França têm direito a anonimato e sessões fechadas, mas Gisèle tomou a decisão extraordinária de abrir o julgamento, acreditando que isso daria força a outras vítimas.
Ela relatou que os advogados lhe deram uma semana para decidir, e que precisou de apenas uma noite para optar pela audiência pública, afirmando, “Nunca me arrependi da minha decisão, nem por uma vez.”
O processo, acompanhado por ampla atenção da imprensa, durou quatro meses e ficou marcado por insinuações e tentativas de minimizar a gravidade dos atos. Gisèle chamou o que aconteceu na corte de “julgamento da covardia”.
Os sete juízes consideraram todos os réus culpados. O ex-marido, Dominique Pelicot, recebeu a pena máxima de 20 anos de prisão, e os outros homens foram condenados a penas que variaram entre cinco e 15 anos, segundo o relato divulgado.
Restauração da vida, perguntas a serem feitas e um novo amor
Ao mesmo tempo em que busca respostas, Gisèle mantém a necessidade de confrontar o ex-marido, dizendo que pretende visitá-lo na prisão para perguntar sobre o que aconteceu com a filha do casal e sobre acusações de homicídio em investigação.
Sobre o futuro, ela afirma que precisa olhar nos olhos do homem que a traiu para tentar obter explicações, embora reconheça que talvez nunca tenha todas as respostas, e que, para viver, teve de acreditar que os 50 anos ao lado do ex-marido não foram apenas uma mentira.
Na Île de Ré, ela conheceu Jean-Loup em 2023, e hoje descreve o relacionamento como um reencontro com valores partilhados, dizendo, “A vida sempre reserva belas surpresas”, frase que resume seu sentimento atual.
Gisèle declara, com firmeza, que escolheu sempre “andar na direção do bem”, e que segue se curando ao mesmo tempo em que busca justiça, verdade e a manutenção dos laços afetivos que restaram.
Memórias, repercussão e legado público
Antes da publicação do livro de memórias, “Um Hino à Vida”, Gisèle contou como a visibilidade do julgamento trouxe apoio público e solidariedade, inclusive mensagens internacionais, e como as imagens das apoiadoras nos tribunais foram um alívio em meio ao sofrimento.
Ela recebeu cartas de apoio, e lembra com emoção a presença de mulheres do lado de fora do tribunal, e a carta pessoal da rainha Camilla, que a surpreendeu e a emocionou.
Para Gisèle, a escolha de enfrentar o processo publicamente se transformou em um gesto político e humano, que, acredita, pode inspirar outras vítimas a buscarem voz e justiça.
Este relato foi produzido com base no material divulgado sobre o caso, conforme informação divulgada pelo g1.