Guerra no Oriente Médio pressiona dólar e petróleo e pode limitar cortes na taxa de juros no Brasil, entenda impacto na Selic, combustíveis e inflação
Cortes na taxa de juros no Brasil podem perder intensidade e duração se alta do petróleo e do dólar se mantiver, afetando expectativas, a estratégia do Copom e o calendário de cortes
A escalada de conflitos no Oriente Médio elevou o preço do petróleo e fez o dólar subir frente ao real, pressões que reverberam nas expectativas de inflação e nas decisões do Banco Central.
Economistas alertam que essa “mudança de preços relativos” de ativos pode contaminar não apenas os preços correntes, mas também as projeções do mercado e da autoridade monetária para a inflação nos próximos anos.
Se a guerra se prolongar, o efeito mais duradouro do petróleo e do dólar pode limitar a intensidade e a duração dos cortes na taxa de juros no Brasil, e alterar o ritmo de redução planejado pelo Copom, conforme informação divulgada pelo g1
Como a guerra pressiona dólar e petróleo
O choque internacional aumentou a aversão a risco e elevou o preço do barril, enquanto o dólar reage como porto seguro, valorizando-se em relação a várias moedas emergentes.
Para analistas, se os movimentos nos mercados externos persistirem, haverá uma contaminação das expectativas de inflação de médio prazo, o que obrigaria o Comitê de Política Monetária do Banco Central a ajustar suas projeções futuras.
O próprio Copom já registrou em ata, antes do conflito, que “Elevações das tensões geopolíticas e seus desdobramentos seguem sendo monitorados, porém no contexto atual os preços das principais commodities permaneceram contidos, e as condições financeiras, favoráveis”.
Impacto nos preços e nos combustíveis no Brasil
O aumento do petróleo no mercado internacional tem potencial para ser repassado aos combustíveis no Brasil, embora a Petrobras tenha mecanismos de suavização que tendem a retardar esse repasse.
Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, afirma que a alta recente do petróleo não gera necessidade imediata de aumento dos combustíveis pela Petrobras, e que só haveria mudança se o preço permanecer elevado por período prolongado.
Segundo a reportagem, ela também diz que um eventual reajuste de cerca de 10% teria um impacto limitado na inflação, e que “o dólar abaixo de R$ 5,50 não traz uma “preocupação maior” para as expectativas de inflação deste ano”.
Na avaliação técnica, “um aumento de 10% na gasolina adiciona cerca de 0,20% a 0,25% ao IPCA anual”, enquanto o diesel tende a afetar os preços de forma indireta, via custos e cadeia produtiva.
O que muda no calendário do Copom e nas expectativas
Até a semana passada, antes do conflito, o mercado projetava que a taxa Selic começaria a ser reduzida neste mês, passando de 15% para 14,5% ao ano, com a trajetória terminando 2026 e 2027 em 12% e 10,5% ao ano, respectivamente.
O Banco Central, no entanto, toma decisões olhando para frente, porque suas ações demoram de seis a 18 meses para ter impacto pleno, e por isso, “o Banco Central está buscando atingir, por meio da fixação da taxa de juros, a meta central de inflação de 3% em doze meses até setembro de 2027”.
Para economistas do ASA, a intensidade do efeito sobre o ciclo de cortes vai depender da duração e da profundidade do conflito. Fabiano Zimmermann, head de fundos de renda fixa do ASA, sinaliza que “No entanto, caso a crise se prolongue, seus desdobramentos podem interromper a sequência de valorização do real [queda do dólar] e provocar uma mudança no patamar dos preços do petróleo, fatores que tenderiam a limitar a magnitude do ciclo de flexibilização monetária [corte dos juros].”
O cenário mais provável e os riscos
Se o choque for breve e os preços das commodities recuarem, o plano de redução da Selic pode seguir, ainda que talvez com ritmo mais cauteloso.
Mas, caso a pressão sobre o petróleo e o dólar persista, o Copom terá que reavaliar o ritmo dos cortes, podendo postergar o início, ou iniciar um ciclo com ritmo mais lento, com menos pontos por reunião.
Em resumo, a guerra no Oriente Médio eleva os riscos sobre a inflação futura e, consequentemente, sobre os planos de cortes na taxa de juros no Brasil, mantendo o mercado e a autoridade monetária em alerta, e obrigando a monitorar diariamente a evolução dos preços internacionais e da taxa de câmbio.