Ibovespa 2026: por que a Faria Lima aposta em nova alta com cortes de juros, entrada de estrangeiros e quais riscos Trump e eleições trazem
Selic em queda e Treasuries menos atrativas deslocam capital para o Brasil, dando fôlego ao Ibovespa, mas a imprevisibilidade de Trump e as eleições elevam a volatilidade
O principal índice da bolsa brasileira abriu 2026 em forte ritmo, renovou máximas históricas e virou centro das atenções na Faria Lima, com analistas projetando continuidade do movimento de alta ao longo do ano.
Entre os vetores apontados pelo mercado estão a expectativa de cortes de juros no Brasil e nos Estados Unidos, e a rotação de recursos globais em busca de maior retorno, impulsionando ações brasileiras.
Apesar do otimismo, especialistas alertam para cenário de elevada volatilidade, marcado pela imprevisibilidade de Donald Trump e pelo calendário eleitoral local, fatores que podem reverter ganhos rapidamente, conforme informação divulgada pelo g1.
O que está impulsionando a alta
Uma combinação de juros menores esperados e um real relativamente atrativo tem trazido capital para a B3. O Banco Central do Brasil deve começar a reduzir a Selic no primeiro trimestre, com o mercado projetando uma queda de 2,75 pontos percentuais até o fim de 2026, passando de 15% para 12,25% ao ano.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve cortou a taxa três vezes em 2025, reduzindo o referencial à faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, o que tende a tornar as Treasuries menos compensadoras e a favorecer mercados emergentes.
O movimento ficou visível no desempenho do índice, que após disparar quase 34% em 2025, iniciou 2026 renovando recordes. Só em janeiro, o Ibovespa registrou sete recordes de fechamento e, em 27 de janeiro, alcançou 181.919 pontos, acumulando valorização de quase 13% no ano e 45% em 12 meses.
Entrada de estrangeiros mantém pressão compradora
Investidores não residentes têm sido determinantes para a força do mercado local. Conforme destacados por analistas, em 2025 estrangeiros fizeram R$ 25,4 bilhões em compras líquidas na bolsa brasileira.
Em 2026 o fluxo seguiu, com aquisição líquida de R$ 8,7 bilhões em ações até 20 de janeiro, segundo relatado pelos participantes do mercado. Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora, afirma, "Ou seja, o investidor estrangeiro segue sendo o principal responsável pela valorização do mercado local nos últimos meses. Se a rotação de recursos globais para mercados emergentes continuar, a probabilidade de o índice local renovar máximas é grande".
Riscos que podem frustrar a alta
Embora a expectativa seja positiva, economistas destacam que a palavra-chave para 2026 será volatilidade. A atuação geopolítica de Trump, com medidas que aumentem tensões e afetem preços de commodities, pode criar mais risco global, reduzindo apetite por ativos arriscados.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, pondera que "Juros mais baixos tornam outros ativos mais atrativos, como as ações. Esse é um lado importante da balança", e adverte que "Tudo isso pode afetar o ambiente de negócios e trazer problemas para algumas companhias. Esse é o outro lado da balança, com potencial de impacto negativo".
Setores sensíveis a trade e tarifas, e empresas com resultados vinculados a crescimento global, podem sofrer recalibração de preço, conforme alerta Dyego Galdino, da Global 360 Invest, "Os resultados das grandes empresas podem desacelerar, deixando o mercado dependente das expectativas em relação às empresas de tecnologia".
Além disso, desafios fiscais domésticos permanecem uma preocupação. Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, lembra que a alta de 34% em 2025 foi puxada por fatores externos e que "alguns países tiveram resultados muito melhores do que o Brasil, como Polônia, Coreia do Sul e a própria Colômbia", indicando risco de relative underperformance caso o tema fiscal volte a pesar.
Projeções e cenários para 2026
Se o cenário favorável prevalecer, analistas veem espaço para novas marcas históricas. Projeções variam, com o Itaú BBA estimando fechamento em torno de 185 mil pontos em um cenário base, enquanto leituras mais otimistas falam em ultrapassar 200 mil ou até 252 mil pontos em cenários estendidos.
A Santander projeta o Ibovespa em 195 mil pontos ao fim de 2026, com sucessivas renovações de recordes. Ainda assim, especialistas avisam que o avanço dificilmente será linear, por conta da sensibilidade do mercado a notícias políticas e externas.
No balanço, o Ibovespa tem apoio de fatores macro e fluxo estrangeiro, mas segue vulnerável a choques geopolíticos, ruídos eleitorais e reavaliação do risco soberano e fiscal, condições que podem acelerar quedas ou corrigir expectativas em curto prazo.