Independência dos bancos centrais em risco, como o Fed e outros quatro bancos centrais enfrentam pressão política e por que isso costuma elevar a inflação
Exemplos históricos e recentes, de Nixon a Erdogan, explicam como a perda da autonomia dos bancos centrais pressiona decisões de juros, acelera a inflação e abala a confiança
A independência dos bancos centrais é vista por economistas como essencial para manter a estabilidade de preços e a credibilidade da política monetária.
Quando governos ou líderes políticos tentam influenciar decisões sobre juros, a experiência histórica mostra, em geral, piora da inflação e do desempenho econômico.
Veja a seguir cinco episódios emblemáticos que ilustram os riscos da interferência política nas decisões monetárias, e o que eles geraram em termos de inflação, câmbio e confiança, conforme informação divulgada pelo g1.
Estados Unidos, do conflito Nixon-Burns à pressão atual sobre o Fed
No passado, o presidente Richard Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, para manter juros baixos visando vencer a reeleição, episódio que é apontado como gatilho de um surto inflacionário.
Mais tarde, Paul Volcker restabeleceu a autoridade do Fed ao elevar os juros para dois dígitos, uma medida politicamente impopular que, segundo analistas, controlou a inflação por quase quatro décadas.
Hoje, a tentativa do presidente Donald Trump de demitir a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, chamou atenção global, porque mexe com a percepção de autonomia do banco central, e se baseia em acusações não comprovadas de fraude hipotecária.
Turquia, demissões em série e inflação em alta
O presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que se declara “inimigo dos juros”, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por discordância sobre política de juros.
O efeito foi o oposto do pretendido, a inflação disparou, a lira entrou em colapso e famílias enfrentaram aumento no custo de itens básicos.
Em 2023, Erdogan nomeou Hafize Gaye Erkan, que elevou a taxa básica de 8,5% para 45%, e seu sucessor, Fatih Karahan, apertou ainda mais a política antes de iniciar um alívio, com a inflação recuando do pico de 85% no fim de 2022, mas ainda permanecendo em dois dígitos.
América Latina, Argentina e Venezuela, histórico de intervenção e hiperinflação
Na Argentina, a nacionalização do banco central por Juan Perón, em 1946, impulsionou décadas de ciclos inflacionários, com governos recorrendo à emissão para financiar gastos.
Desde 2000, o país já teve dos 14 presidentes do BC desde 2000, vários afastados por discordâncias com o governo, incluindo o caso de Martín Redrado, demitido em 2010 por recusar uso de reservas para pagar dívidas.
Na Venezuela, apesar de a Constituição prever certa independência, leis recentes colocaram o banco central sob controle do Executivo e a instituição passou a emitir moeda para financiar déficits após a queda dos preços do petróleo em 2014.
Isso resultou em hiperinflação, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000% no pico de 2018, em um colapso que afetou profundamente a capacidade de compra da população.
Zimbábue, emissão extrema e perda de credibilidade
No Zimbábue, o banco central emitiu moeda para financiar gastos do governo do então presidente Robert Mugabe, incluindo despesas eleitorais e transferências a entidades estatais, segundo o FMI.
A hiperinflação atingiu níveis extremos e, em janeiro de 2009, o então presidente do banco central, Gideon Gono, chegou a emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares, símbolo da crise monetária e da perda de confiança no sistema financeiro.
Esses episódios mostram que a intervenção política na política monetária tende a corroer a capacidade do banco central de ancorar expectativas de inflação e de proteger a economia contra choques.
Em resumo, a preservação da independência dos bancos centrais é apontada por especialistas como fundamental para evitar escaladas inflacionárias, choques cambiais e perda de crescimento, e os casos citados reforçam o custo econômico de interferências políticas.