Independência dos bancos centrais em xeque, do Fed às crises da Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue, entenda como a pressão política eleva a inflação e prejudica a economia
A ofensiva política sobre dirigentes de bancos centrais, incluindo a tentativa de demissão da diretora do Fed, acende alertas sobre inflação mais alta e perda de credibilidade institucional
A independência das instituições que definem juros é vista como fundamental para controlar a inflação e garantir crescimento sustentável.
Nos últimos anos, casos em diferentes países mostram que interferência política tende a piorar resultados econômicos, com efeitos duradouros sobre preços e confiança.
Esta reportagem reúne exemplos recentes e históricos para explicar por que a independência dos bancos centrais importa, conforme informação divulgada pelo g1.
EUA, história e a atual crise institucional
No centro das atenções está a tentativa do presidente Donald Trump de demitir a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, ação que se apoia, segundo reportagem, em acusações não comprovadas de fraude hipotecária.
Embora nenhum presidente americano tenha demitido um chefe do Fed por divergência sobre juros, presidentes anteriores tentaram influenciar decisões de política monetária.
O ex-presidente Richard Nixon pressionou Arthur Burns a manter juros baixos antes da eleição de 1972, episódio amplamente associado ao início de um surto inflacionário que só foi contido depois com a política firme de Paul Volcker, que elevou os juros para dois dígitos, e restabeleceu a credibilidade do Fed.
Turquia, a experiência recente de intervenção
O presidente Recep Tayyip Erdogan, que se declara “inimigo dos juros”, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por resistirem a cortes que ele exigia.
O resultado foi o oposto do desejado, com inflação disparando e a lira entrando em colapso, tornando itens básicos mais caros para as famílias.
Em 2023, Erdogan nomeou a executiva Hafize Gaye Erkan, que elevou a taxa básica de juros de 8,5% para 45% em pouco tempo. A inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos, mostrando o custo econômico da instabilidade institucional.
Argentina, Venezuela e Zimbábue, lições de pressão política e hiperinflação
Na Argentina, a nacionalização do banco central por Juan Perón em 1946 marcou uma trajetória de repetidas crises, com governos recorrendo à emissão monetária para financiar gastos, e sucessivas ondas de inflação elevada e episódios de hiperinflação.
Desde 2000, o país teve 14 presidentes do Banco Central, e vários foram afastados por divergências com o Executivo, incluindo Martín Redrado, demitido em 2010 por se recusar a usar reservas cambiais para pagar dívidas do governo.
Na Venezuela, apesar de a Constituição proibir financiamento direto de déficits, o governo aprovou leis que colocaram o banco central sob controle total do Executivo. Após a queda dos preços do petróleo em 2014, a emissão de moeda para cobrir déficits alimentou uma hiperinflação que atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000%.
No Zimbábue, o banco central também emitiu moeda para financiar gastos do governo durante o mandato de Robert Mugabe, incluindo gastos eleitorais e subsídios, levando a uma hiperinflação extrema, que em janeiro de 2009 resultou na emissão de uma cédula de 100 trilhões de dólares por Gideon Gono.
Por que a independência dos bancos centrais importa
Estudos acadêmicos ao longo de décadas mostram que países onde bancos centrais se alinham às preferências políticas tendem a ter inflação mais alta e crescimento mais fraco.
Quando um banco central preserva sua autonomia, ele consegue ancorar expectativas, reduzir o risco de inflação cronicamente elevada e manter custos de empréstimos coerentes com a estabilidade de preços.
Interferência política costuma minar essa ancoragem, forçar ajustes abruptos e gerar custos sociais, como desemprego e recessão, quando é necessário recolocar a inflação sob controle.
Os exemplos do Fed, da Turquia, da Argentina, da Venezuela e do Zimbábue ilustram caminhos distintos, mas convergentes, sobre como pressões políticas podem deteriorar resultados macroeconômicos e a confiança nas instituições.
Governos e formuladores de política enfrentam, assim, um dilema, entre respostas de curto prazo a pressões políticas e a necessidade de preservar a independência dos bancos centrais para assegurar estabilidade de preços e credibilidade no médio e longo prazo.