Jenga: a origem surpreendente do jogo de 54 blocos criado por Leslie Scott em Gana, que virou fenômeno com cerca de 100 milhões de unidades vendidas

Da infância no leste da África às prateleiras internacionais, veja como um passatempo com blocos, um nome em suaíli e um acaso comercial transformaram Jenga em sucesso global

Jenga nasceu de uma brincadeira simples entre irmãos, com peças de madeira que sobraram de uma serraria em Gana, e acabou se tornando um dos jogos mais reconhecidos do mundo.

A criação, desenvolvida por Leslie Scott ainda na infância e aperfeiçoada depois em eventos no Reino Unido, enfrentou dificuldades comerciais, dívidas e rejeições até conquistar licença internacional e vendas massivas.

Conforme informação divulgada pelo g1

A invenção em Gana e as regras básicas

A ideia inicial era despretensiosa e fácil de reproduzir, com 54 blocos de madeira, todos do mesmo tamanho, empilhados em grupos de três, formando uma torre. A cada jogada, um participante retira um bloco e o coloca no topo, até que a estrutura perca o equilíbrio e desmorone.

O objetivo é simples, e a consequência é inevitável, o que explica parte do apelo social do jogo, que estimula tensão e risos em reuniões de família e festas.

Leslie Scott lembra que a brincadeira surgiu quando a família morava em Gana, e que os irmãos buscavam formas constantes de se divertir com objetos do dia a dia.

Origem pessoal, memórias e a frase que explica o ambiente familiar

Sobre o clima em que o jogo surgiu, Scott descreveu a convivência em casa com uma frase direta, que revela o espírito competitivo dos encontros familiares, “Somos uma família muito competitiva, no sentido de que, em qualquer reunião, acabávamos jogando algum jogo“, disse ela ao programa Witness, da BBC.

A lembrança de um irmão com pedaços de madeira reaproveitados serviu de matéria-prima para o brinquedo, e a experiência cresceu naturalmente entre os familiares até acompanhar Scott ao Reino Unido, já adulta.

Da feira ao fracasso, e a lição de criar um portfólio

Depois de se mudar para o Reino Unido, Scott decidiu transformar o passatempo em produto comercial. Ela fundou uma empresa, buscou empréstimos e produziu as primeiras unidades para apresentar na Feira do Brinquedo de Londres, em 1983.

No entanto, a primeira participação foi decepcionante, pois apesar do interesse, não houve pedidos no evento. Scott relatou que recebeu muitas perguntas, e aprendeu que uma empresa iniciante precisava de mais produtos para convencer compradores a investir. Assim, ela passou a criar outros jogos para compor um portfólio.

Naqueles anos, com a crescente chegada dos videogames, a comercialização de jogos de mesa se tornou ainda mais desafiadora, e Scott enfrentou dificuldades financeiras, dizendo que “eu estava perdendo muito dinheiro e me endividando cada vez mais”.

O nome, a resistência e o golpe de sorte que mudou tudo

O reconhecimento internacional veio após uma apresentação fortuita em um shopping no Canadá, onde um executivo da Irwin Toy, maior fabricante do país, viu o jogo e levou a proposta aos diretores.

A negociação quase fracassou por causa do nome, mas Scott se manteve firme ao recusar a mudança. Ela explicou a origem do termo, contando que sua infância no leste da África e o uso do suaíli inspiraram a escolha: “Minha mãe tinha um cachorro chamado Kucheza, que em suaíli significa ‘jogar'”, e a palavra Kujenga significa ‘construir’ em suaíli, então o nome fazia sentido para o jogo.

Sobre a conversa com a Irwin Toy, Scott relatou com clareza a resistência dos compradores, “Eles disseram que gostavam muito do jogo, que adoravam [,] mas odiavam o nome.” Ela não cedeu, e o nome Jenga permaneceu.

Reconhecimento, números e legado

Com o acerto da licença e a produção em escala, o jogo se espalhou internacionalmente. Hoje, Jenga é reconhecido como um clássico moderno, e é listado no National Toy Hall of Fame dos Estados Unidos.

O sucesso também se mede em vendas: segundo a matéria original, o jogo alcançou com cerca de 100 milhões de unidades vendidas em todo o mundo, um número que confirma sua penetração em lares e eventos sociais globalmente.

A trajetória de Leslie Scott foi marcada por persistência, criatividade e risco financeiro, já que ela recorreu a empréstimos e até usou a casa da mãe como garantia para tocar o projeto. No fim, Scott conseguiu pagar dívidas, e sua mãe não precisou vender o imóvel.

Desde então, Scott lançou mais de 40 jogos, consolidando-se como designer e comprovando que uma ideia simples, bem executada e defendida, pode virar um fenômeno cultural.