Macron critica aplicação provisória do acordo UE-Mercosul, chama decisão de má surpresa e alerta que importações podem prejudicar produtores franceses
Presidente da França diz que medida é desrespeitosa ao Parlamento, França teme entrada de carne bovina, açúcar e aves a preços mais baixos e reclamações de produtores
A decisão da Comissão Europeia de aplicar provisoriamente o acordo UE-Mercosul provocou forte reação política em Paris, com o presidente Emmanuel Macron qualificando a medida como uma surpresa ruim.
A França, maior produtora agrícola da União Europeia, teme aumento de importações de carne bovina, açúcar e aves a preços menores, o que pode prejudicar produtores locais e alimentar novos protestos.
As informações acima foram divulgadas pelo g1, com base em reportagem que cita pronunciamentos de autoridades europeias e reações de associações do setor.
Reação política e votação
21 países da União Europeia apoiaram o acordo. Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra, enquanto a Bélgica se absteve. A votação em janeiro mostrou que o bloco segue dividido sobre o texto.
Em Paris, Emmanuel Macron afirmou, em entrevista a jornalistas, “Para a França, é uma surpresa, uma surpresa ruim, e, para o Parlamento Europeu, é desrespeitoso”, expressando irritação com a forma e o timing da decisão.
A associação francesa da indústria da carne, Interbev, pediu aos parlamentares franceses no Parlamento Europeu que atuem para “impedir que a Comissão contorne o debate democrático”, segundo relato da reportagem.
Impacto para produtores e mercado
O governo francês afirma que o tratado aumentará de forma significativa as importações de carne bovina, açúcar e aves a preços mais baixos, o que pode prejudicar os produtores locais, que vêm realizando protestos frequentes.
O temor é que a entrada de produtos com preços inferiores pressione margens e renda dos agricultores franceses, ampliando o descontentamento no setor, e levando a novas mobilizações.
Avanço do acordo e números
O acordo entre a União Europeia e Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai foi concluído em janeiro, após 25 anos de negociações, segundo a reportagem citada.
O tratado pode eliminar cerca de 4 bilhões de euros em tarifas sobre exportações europeias, tornando-se o maior acordo de livre comércio do bloco em termos de redução potencial de impostos de importação, aponta a matéria.
A decisão da Comissão Europeia de aplicar o texto provisoriamente ocorre após a ratificação do acordo pela Argentina e pelo Uruguai, na quinta-feira, e depois de a Câmara dos Deputados do Brasil ter aprovado o texto na quarta-feira, quando ele seguiu para análise do Senado.
O que dizem os líderes e próximos passos
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, em declaração breve, “Já disse antes: quando eles estiverem prontos, nós também estaremos”, ao anunciar que a Comissão seguirá com a aplicação provisória do acordo.
A Alemanha e outros países favoráveis, como a Espanha, defendem que o acordo UE-Mercosul é essencial para compensar perdas comerciais e reduzir dependência em minerais estratégicos, argumento que contrasta com as preocupações agrícolas francesas.
Com o início da aplicação provisória, o foco agora se volta ao Parlamento Europeu e aos parlamentos nacionais, onde aliados e opositores tentarão influenciar os termos finais e eventuais salvaguardas para setores sensíveis.