Milei, China e Trump: como negociar com Pequim sem romper a aliança com Washington, entre swap de US$ 5 bilhões, comércio e pressão dos EUA
Milei China Trump, tensão entre pragmatismo econômico e alinhamento estratégico, com comércio intenso, swaps e receio dos EUA sobre influência chinesa
O presidente Javier Milei enfrenta um dilema central, negociar com a China sem desagradar Donald Trump, ao mesmo tempo em que tenta garantir reservas e investimento para a Argentina.
Pequim é parceira comercial decisiva e ofereceu instrumentos financeiros que ajudam a estabilizar a economia, enquanto Washington exige alinhamento político e reduz a presença chinesa na região.
O quadro coloca Milei entre a necessidade de manter fluxos comerciais e a pressão externa por posicionamentos geopolíticos claros, conforme informação divulgada pelo g1
Por que a China é essencial para a economia argentina
A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil, e o comércio bilateral tem forte peso na balança do país. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos, o comércio com Pequim representou 23,7% das importações argentinas e 11,3% das exportações em 2025.
A complementaridade econômica é evidente, 70% das exportações argentinas para a China em 2025 foram de soja, carne bovina e lítio, setores estratégicos para receitas em moeda forte.
Além do comércio, a relação financeira avançou com a renovação do swap cambial, na parte ativa do acordo, no valor equivalente a US$ 5 bilhões, instrumento que ajuda a reforçar reservas, objetivo declarado do governo Milei.
As pressões dos Estados Unidos e a Doutrina Donroe
Do lado dos EUA, a administração Trump tem criticado a reaproximação de aliados com a China e impulsionado uma releitura da Doutrina Monroe, apelidada de “Doutrina Donroe”, para reafirmar influência no hemisfério.
Analistas citados pela reportagem destacam que a Argentina é vista como país-chave para a liderança regional que Trump busca, e que o alinhamento de Milei com os EUA inclui ações militares e visitas de comandantes do Comando Sul a bases argentinas em construção em Ushuaia.
Em outubro, Washington concedeu uma linha de ajuda financeira de US$ 20 bilhões à Argentina, e o secretário do Tesouro americano afirmou, “Não queremos outro Estado falido ou liderado pela China na América Latina”, frase que ilustra a preocupação norte-americana.
Como Milei tenta conciliar economia e geopolítica
Milei afirma manter um equilíbrio entre interesses econômicos e alinhamento com os EUA. Em Davos, ele declarou que “a China é uma grande parceira comercial”, que oferece “muitas oportunidades para expandir mercados”, e que isso “não entra em conflito” com sua proximidade com Washington.
O presidente também reforçou, “Governo para 47,5 milhões de argentinos e tomo as decisões que melhor beneficiam os argentinos”, e disse, “Quero uma economia aberta”, posicionamento que explica a abertura a investimentos e importações chinesas.
Para o diretor do Observatório Sino-Argentino, Patricio Giusto, “Esse alinhamento total com os Estados Unidos e Israel, que é uma posição praticamente única no mundo, entra em conflito com a tentativa de estreitar relações com a China”, mostrando a dificuldade de separar política externa de interesses comerciais.
Riscos, vantagens e cenários possíveis
As vantagens de manter laços com a China incluem acesso a mercados e investimentos em energia, lítio e infraestrutura, e a chegada de produtos e tecnologia, como cerca de 5 mil carros elétricos da marca chinesa BYD em janeiro.
Ao mesmo tempo, a maior presença chinesa traz reação de Washington, que monitora campos estratégicos como Vaca Muerta e o Polo Sul, e pode condicionar apoio futuro a posições comerciais e de segurança.
Segundo Florencia Rubiolo, diretora do Insight 21, “Para a Argentina, romper laços com a China é absolutamente impraticável, porque a China é uma parceira insubstituível”, síntese do risco de uma ruptura brusca.
O desafio de Milei, portanto, é transformar o que chama de separação entre laço econômico e alinhamento geopolítico em política sustentável, enquanto administra swaps, exportações concentradas e a pressão política de Washington.