Pai da Guiné relata busca desesperada por filhos vítimas de tráfico de pessoas ligado a esquema QNET em Serra Leoa, família pagou US$ 25 mil e enfrenta impunidade
Relato de Musa expõe como o tráfico de pessoas usa o nome da QNET para recrutar e lucrar na África ocidental, com rotas pela Guiné e por Serra Leoa e respostas policiais insuficientes
Musa viajou de sua aldeia em Faranah, na Guiné, até Makeni, em Serra Leoa, na esperança de encontrar os filhos que desapareceram após promessas de trabalho no exterior, ele pagou US$ 25 mil, segundo a apuração.
O pai gravou um vídeo em que o filho chora e suplica por ajuda, e Musa diz, com dor, que “meu coração está destruído” e que “não consigo parar de chorar“.
Há relatos de que o grupo, recrutado em fevereiro de 2024, foi levado para Serra Leoa e mantido em cativeiro por traficantes que se apresentavam como representantes da QNET.
conforme informação divulgada pelo g1
Operação de resgate e atuação policial
A Interpol na Guiné acionou uma unidade em Serra Leoa, e autoridades locais realizaram batidas em residências de Makeni, encontrando dezenas de jovens, com bolsas e roupas espalhadas pelo chão e cerca de 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto.
Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol em Serra Leoa, afirmou à reportagem que “é muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais“.
Na operação, a polícia reuniu os que estavam no imóvel, encontrou pessoas com apenas 14 anos e identificou que a maioria era da Guiné, “a maioria é da Guiné“, disse Conteh.
Embora os filhos de Musa não tenham sido encontrados naquele momento, um jovem disse que eles estiveram ali na semana anterior, e 19 resgatados foram levados de volta para a Guiné.
Depoimentos de vítimas sobre o esquema QNET
Vítimas relatam que traficantes usavam o nome da QNET, empresa legítima de Hong Kong, como fachada, oferecendo empregos em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa, e exigindo pagamentos altos por supostas taxas administrativas.
A jovem identificada como Aminata contou que foi recrutada em meados de 2024, pagou cerca de US$ 1 mil, e que depois passou a ser explorada, porque os prometidos empregos nunca existiram.
Aminata disse à reportagem, “você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter“, ela também explicou que os recrutadores forneciam passaportes e documentos falsos, e encenavam a aparência de uma viagem iminente.
Segundo relatos das vítimas, os traficantes davam um número internacional para contato e pediam que quem quisesse viajar recrutasse outras pessoas, mantendo o controle por meio de promessas e manipulação.
Escala do problema e falhas na punição
Não existem estatísticas completas sobre o total de vítimas desse tipo de golpe, mas a imprensa da África ocidental e operações policiais mostram que o problema é sistêmico, com redes que agem em vários países.
A polícia de Serra Leoa afirmou ter realizado mais de 20 batidas no ano passado, resgatando centenas de vítimas, e detendo 12 suspeitos de tráfico, porém, poucas prisões resultaram em condenações.
Dados do Departamento de Estado dos Estados Unidos indicam que, entre julho de 2022 e abril de 2025, quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime, evidenciando dificuldades na responsabilização.
Musa voltou para a Guiné sem os filhos no final de setembro do ano passado, e a BBC confirmou que a filha dele retornou a outro local na Guiné, mas não quis falar, o que ilustra a vergonha e o estigma entre vítimas.
O que especialistas e familiares pedem
Autoridades locais e organizações que acompanham o caso pedem mais recursos para investigar redes transnacionais e fechar rotas de passagem, especialmente cruzamentos informais entre países.
Para famílias como a de Musa, a prioridade é localizar os desaparecidos e garantir apoio às vítimas que voltam, muitas vezes sem acolhimento ou assistência psicológica, enquanto golpes continuarem a explorar promessas de emprego e a fragilidade econômica.
O relato de Musa, dos resgatados e de autoridades revela um padrão de aliciamento, exploração e impunidade, e torna urgente reforçar ações de prevenção, investigação e proteção às vítimas de tráfico de pessoas na região.