Pai da Guiné viaja a Serra Leoa e se une à Interpol para tentar encontrar filhos vítimas de tráfico humano ligado ao esquema falso da QNET

Relato de Foday Musa revela pagamento de US$ 25 mil, resgates em Makeni, depoimentos de vítimas e falhas na investigação, enquanto poucas condenações são registradas

Foday Musa não vê seus filhos há dois anos, e a última mensagem de voz que recebeu ainda o deixa em choque, com o filho chorando e pedindo ajuda. O pai viajou até Serra Leoa na tentativa de localizá‑los, após supostos recrutadores oferecerem trabalho no exterior e, na prática, serem traficantes.

A operação envolveu uma unidade policial especializada, ligada à Interpol em Serra Leoa, que realizou batidas em alojamentos na cidade de Makeni, onde foram encontrados dezenas de jovens retidos. Vítimas contaram que eram pressionadas a recrutar outras pessoas, sob a promessa de embarque futuro para os Estados Unidos e Europa.

O caso de Musa ilustra um padrão de golpes por trás do qual criminosos usam o nome da empresa QNET como cobertura, cobrando altas quantias e mantendo as vítimas em cativeiro. Conforme informação divulgada pelo g1

O drama da família, os pagamentos e as mensagens

Segundo relatos, a família de Musa entregou aos supostos recrutadores, que se apresentaram como representantes do programa, um total de US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), entre taxas de inscrição e valores extras na tentativa de libertar os jovens. Em entrevista, Musa diz que ouvir a gravação de 76 segundos do filho é insuportável, porque, nas palavras dele, “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói“.

Musa participou de uma batida policial em Makeni com a esperança de encontrar os filhos. Policiais relataram encontrar quartos com bolsas espalhadas e de 10 a 15 pessoas dormindo em cada aposento, incluindo menores de 14 anos, e identificaram que a maioria das vítimas era da Guiné.

Como funciona o esquema QNET na região

O golpe, segundo investigações locais, usa o nome da QNET, empresa legítima de Hong Kong, como fachada. Recrutadores prometem emprego no exterior, pedem pagamento adiantado, e depois transferem as vítimas para alojamentos em países vizinhos, onde são mantidas até recrutarem outras pessoas.

Algumas vítimas aceitaram a tarefa de recrutar amigos e familiares na esperança de finalmente embarcar. Em vários casos, os aliciadores chegam a fornecer documentos e passaportes falsos, fotografias e números internacionais para simular que a vítima já está no exterior.

Depoimentos de vítimas, exploração e fuga

A jovem identificada como Aminata relatou que pagou US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil), valor que sua família guardava para a faculdade, e acabou retida por cerca de um ano na periferia de Freetown. Ela conta que, após o suporte inicial, ficou desamparada e teve de se prostituir para sobreviver, descrevendo, em suas palavras, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter“.

Aminata também disse que foi instruída a recrutar seis familiares e amigos, o que acabou ampliando o alcance do golpe. Quando percebeu que o trabalho no exterior nunca ocorreria, fugiu, e retornou com vergonha, porque todos acreditavam que ela já estava morando fora.

Polícia, Interpol e a dificuldade para condenar

Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol em Serra Leoa, afirmou que o caso de Musa foi tratado como prioritário, e declarou, segundo relatos, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais“. A polícia informou ter realizado mais de 20 batidas no ano anterior, resgatando centenas de vítimas.

No entanto, as autoridades enfrentam limitações de recursos e grandes desafios para levar os casos ao tribunal. Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022, quando Serra Leoa aprovou a lei contra o tráfico de pessoas, e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.

Em operações recentes em Makeni, a polícia deteve 12 supostos traficantes, e em uma das ações 19 jovens foram devolvidos à Guiné, mas o paradeiro de muitos permanece desconhecido. No caso de Musa, a BBC informou que sua filha retornou a outro local na Guiné e não quis se pronunciar, e o filho continua desaparecido.

Impacto social, estigma e necessidades de prevenção

Além do trauma físico e financeiro, vítimas e famílias convivem com o estigma social, que muitas vezes impede a busca por ajuda. Musa diz que seu “coração está destruído“, e que só quer que tudo termine para rever os filhos, refletindo a dor de muitas famílias afetadas pelo tráfico humano na África ocidental.

Especialistas apontam que ações de prevenção, campanhas públicas, cooperação transfronteiriça e maior capacidade de investigação são essenciais para frear os grupos que se aproveitam da desinformação e da pobreza. A própria QNET lançou campanhas locais com o slogan “QNET contra os golpes”, tentando alertar a população sobre falsos recrutadores.

Casos como o de Musa mostram que, apesar de batidas e resgates, sem julgamentos e condenações efetivas a impunidade alimenta a repetição do crime, e a busca por justiça continua sendo um desafio humanitário e institucional na região.