Pênis bovino e vergalho bovino no mercado global, do prato afrodisíaco na China aos petiscos para cães no Brasil, como frigoríficos aproveitam todas as partes
A cadeia do vergalho bovino, da extração à exportação, preços e destino, entre consumo humano na Ásia e petiscos para cães no Brasil
O pênis bovino, também chamado de vergalho bovino, circula em mercados distintos, entre pratos considerados afrodisíacos na Ásia e petiscos industrializados no Brasil.
Processamento simples, saída para exportação e uso na indústria pet explicam por que o produto é aproveitado em larga escala pelos frigoríficos brasileiros.
Os dados e declarações a seguir foram organizados a partir das informações divulgadas pelo g1.
Como é produzido e embalado
A extração do pênis bovino é descrita como simples por especialistas do setor, e a peça, chamada vergalho, exige higienização e retirada de membranas antes do empacotamento.
Após a retirada, o vergalho é higienizado e tem suas membranas retiradas, depois, cada peça é embalada individualmente, explica Marcos de Paula, especialista em exportação da Sul Beef.
Para comercialização, a peça costuma ser desidratada, o que reduz o peso de cerca de 500 gramas para 200 gramas por unidade, tornando o transporte e o armazenamento mais práticos.
Para onde vai o vergalho
Todos os frigoríficos do Brasil comercializam o pênis bovino, diz o especialista em exportação da Sul Beef, o que permite um fluxo constante do produto dentro e fora do país.
Deste modo, o número de bois abatidos é o mesmo de vergalhos produzidos, afirma Bruno de Jesus Andrade, diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac).
No 3° trimestre de 2025, o Brasil abateu mais de 5 milhões de bovinos machos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), portanto, produziu mais de 5 milhões de vergalhos, ilustrando a escala da oferta.
Os destinos se dividem entre mercados asiáticos e o setor pet. O frigorífico Sul Beef, do Mato Grosso, divulgou que mais de 90% de suas vendas de vergalho vão para o mercado asiático, enquanto o restante é direcionado ao setor pet, com foco no Brasil, no Paraguai e nos Estados Unidos.
Atualmente, não há dados específicos sobre o volume exportado de pênis bovino, porque o produto aparece nas estatísticas oficiais dentro da categoria de “miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas”, junto com outros órgãos como o rim, e quando processado pode entrar na categoria de “preparações alimentícias”, explica Andrade.
Ao todo, o Brasil faturou US$ 231.752 com a venda de miudezas comestíveis de bovinos frescas ou refrigeradas para o exterior, segundo a Agrostat, plataforma do Ministério da Agricultura que reúne dados de exportação.
No mercado de Hong Kong, o valor da tonelada do produto pode chegar a US$ 6 mil, segundo o Imac, valor superior a outros miúdos vendidos para a China, como o omaso, até US$ 5,5 mil a tonelada, e o bucho, por até US$ 4 mil.
Consumo humano e mudança geracional
Na China, o vergalho aparece em casas especializadas e em preparações tradicionais, com apelo entre parte da população mais velha que mantém hábitos de consumo ligados à medicina tradicional e crenças sobre libido.
Segundo relatos de profissionais do setor, pratos preparados com pênis de animais são apontados por alguns chefs como estimuladores da libido, mas especialistas avaliam que o público consumidor vem encolhendo com a ocidentalização dos hábitos alimentares.
Bruno de Jesus Andrade compara a mudança com a perda de hábitos entre jovens no Brasil, citando pratos como caldo de mocotó e buchada de bode, que têm menor consumo pelas novas gerações.
Petiscos, preços e aproveitamento total
Uma parcela significativa da produção tem virado petiscos para cães, impulsionada pelo crescimento dos cuidados com pets e pela busca por produtos naturais e ricos em nutrientes para animais de estimação.
No mercado interno, o preço médio do quilo chega a R$ 21, informa o Imac, enquanto produtos prontos para consumo do pet variam conforme o peso, com pesquisa online apontando vergalhos de R$ 12 até R$ 80.
Além do vergalho, outras partes do boi são reaproveitadas em setores diversos, com crina das orelhas para pincéis, chifres para objetos e sangue e glândulas para a indústria farmacêutica, segundo fontes do setor, evidenciando a lógica de aproveitamento integral do animal.
O vergalho, portanto, transita entre tradição culinária, demanda internacional e um mercado pet em expansão, o que explica sua presença constante nas cadeias de produção brasileiras.