Por que o México foi o maior beneficiado pelas tarifas de Trump, como o T-MEC impulsionou as exportações e qual é o teste decisivo nas renegociações com os EUA

Com as tarifas de Trump, a isenção do T-MEC reduziu a tarifa efetiva sobre produtos mexicanos para 4,6%, elevou exportações em 5,66% e coloca o acordo em risco nas negociações

O México se destacou como um dos grandes beneficiados pela onda de tarifas anunciadas pela Casa Branca em abril de 2025, apesar de o pacote afetar dezenas de países.

Empresas e investidores passaram a olhar para o país como alternativa para manter cadeias produtivas próximas dos Estados Unidos, por causa da combinação entre localização, indústria já estabelecida e proteção do T-MEC.

Os dados e análises a seguir explicam por que o México ganhou espaço nas exportações americanas, e qual o desafio que vem pela frente nas renegociações do acordo comercial, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o México ganhou com as tarifas de Trump

Uma das razões centrais foi a isenção concedida a produtos que atendem às regras do T-MEC, o tratado entre México, Estados Unidos e Canadá.

Como explicou Erica York, analista do Tax Foundation, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC”.

Na prática, essa exceção tornou mais atrativo para exportadores se adequar ao T-MEC do que arcar com tarifas novas e incertas, levando a um aumento do comércio intra-bloco.

Os números que confirmam o desvio comercial

O Modelo de Orçamento Penn Wharton, da Universidade da Pensilvânia, calcula que a tarifa de importação efetiva para produtos mexicanos foi de 4,6% em outubro de 2025.

O Canadá teve tarifa efetiva de 3,9%, enquanto a China sofreu uma tarifa média de 37,1% no ano, segundo o mesmo estudo.

Para o resto do mundo, a tarifa efetiva média subiu para 10,91% em outubro, frente a 2,2% em janeiro de 2025, antes do segundo mandato de Donald Trump.

Na prática, isso levou compradores americanos, empresas e consumidores a preferirem fornecedores com menores alíquotas, beneficiando o México, que viu suas exportações para os EUA crescerem 5,66% em 2025.

Setores que avançaram e setores que sofreram

Nem todos os setores mexicanos prosperaram. O setor automotivo, por exemplo, teve avanço modesto de apenas 0,9% em 2025, segundo os números citados.

Isso ocorreu mesmo após negociações que limitaram tarifas a componentes automotivos “não fabricados nos Estados Unidos”, ou seja, fora das regras do T-MEC.

Por outro lado, segmentos ligados a aço e alumínio sentiram o impacto direto, com tarifas de 25% que reduziram exportações desses produtos para os EUA.

O papel do T-MEC e o nearshoring

Antes da onda tarifária de 2025, muitos exportadores preferiam não seguir todas as regras do T-MEC por causa da burocracia, e pagavam tarifas baixas em vez de se certificar.

Após o anúncio das tarifas, o cenário mudou, e exportadores passaram a usar o T-MEC para evitar tributos, elevando a participação do acordo no comércio norte-americano.

Erica York observa que a proporção de bens importados sob o T-MEC saltou de cifras de 38% e 49% em 2024 para cerca de 86% a 87% nos meses seguintes, o que ajudou a sustentar o crescimento das exportações mexicanas.

Além disso, conforme estoques e contratos firmados anteriormente foram se esgotando, fabricantes que já produziam no México ganharam espaço frente a fornecedores asiáticos, acelerando o movimento de nearshoring, segundo o economista Mario Campa, da Universidade Columbia.

O teste decisivo nas renegociações do T-MEC

O maior desafio para o México agora é a renegociação do T-MEC prevista para este ano, em um ambiente político imprevisível nos EUA.

Em 13 de janeiro, o presidente Donald Trump disse que o T-MEC lhe parece “irrelevante”, e declarou que “não precisamos de carros fabricados no Canadá, não precisamos de carros fabricados no México”.

Essa postura colocou sob tensão a continuidade do acordo, e a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, respondeu afirmando acreditar que a relação comercial com os EUA continuará, e que empresários americanos defendem o tratado por causa da profunda integração industrial.

Para Mario Campa, há cenários que vão da renovação do acordo, possivelmente com ajustes, até a desintegração do bloco, o que seria catastrófico para o México.

Ele alerta que acordos paralelos, como a aproximação do Canadá com a China, são um sinal negativo no contexto da renegociação e que o México precisa preparar planos alternativos para diversificar mercados.

O que vem a seguir, em termos práticos

Se o T-MEC for mantido com as regras atuais, o México pode consolidar sua posição como principal fornecedor dos EUA, mantendo a vantagem gerada pelas isenções e pela proximidade geográfica.

Se houver ruptura, será necessária maior diversificação das exportações mexicanas e execução de planos como o “Plano México” anunciado pela presidente Sheinbaum, para reduzir a dependência dos EUA.

Em resumo, as tarifas de Trump redesenharam fluxos comerciais, beneficiaram o México no curto prazo, e agora colocam o país diante de um teste decisivo nas mesas de negociação do T-MEC.