Por que os IPOs brasileiros voltaram agora, por que empresas listam nos EUA e como juros altos, Selic e apetite por risco moldam essa escolha

Motivos econômicos e estratégicos explicam por que companhias nacionais preferem Wall Street no momento, com juros altos no Brasil e cortes de juros nos EUA favorecendo ofertas no exterior

Três anos sem ofertas públicas iniciais de peso entraram em pausa nos mercados brasileiros, e agora empresas reavaliam onde abrir capital.

O retorno começa com o IPO do banco digital PicPay na Nasdaq, seguido pelo anúncio do Agibank, que também pretende listar nos Estados Unidos.

Esses movimentos refletem fatores financeiros e setoriais que afetam a demanda por IPOs no Brasil, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que os juros altos travaram os IPOs

Um dos motivos centrais é a Selic em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, que tornou a renda fixa mais atrativa e reduziu o apetite por risco dos investidores.

Como disse Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.

Em 2021 a Selic saiu de 2% para 9,25%, um salto de 7,25 pontos percentuais, e depois seguiu para 15% em junho do ano passado, um aumento adicional de 5,75 pontos percentuais em relação a 2021.

Bruno Saraiva, do Bank of America no Brasil, resume a consequência, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”.

Greenlees complementa, “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.

Por que nos Estados Unidos e não aqui

Além dos juros brasileiros, a dinâmica global e o histórico setorial pesam na decisão de listar no exterior. Nos EUA, o Federal Reserve já iniciou um ciclo de cortes, com as taxas atualmente na faixa de 3,50% a 3,75%, movimento que melhora o apetite por ativos de risco.

Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, destaca que “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”.

No caso do PicPay, o histórico do setor e a presença de pares como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP em Wall Street ajudam a justificar a opção pela Nasdaq.

O que esperar para o mercado de IPOs no Brasil

A perspectiva de cortes na Selic já no primeiro trimestre oferece algum alento. O boletim Focus projeta que a Selic deve terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 pontos percentuais em relação ao nível atual.

Sobre a retomada, Greenlees afirma, “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”.

Bruno Saraiva também se mostra moderadamente otimista, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”.

Impacto para investidores e empresas

Para empresas, listar nos EUA pode significar maior demanda por ações em um ambiente de juros mais baixos e maior visibilidade global.

Para investidores locais, uma queda gradual da Selic aumenta as chances de que recursos retornem ao mercado de ações, mas a recuperação do mercado de capitais dependerá também de fatores fiscais e de confiança na trajetória econômica.

Em resumo, a escolha por bolsas estrangeiras neste momento combina pressão de juros altos no Brasil, atração por condições externas mais favoráveis e decisões estratégicas ligadas ao setor e à concorrência, e a retomada de IPOs no país deve ser gradual, conforme informação divulgada pelo g1.