Presidente da Fundação Palmares, João Jorge, defende união forte da diáspora africana no Brasil e propõe bienal de artes no Togo

João Jorge, presidente da Fundação Palmares, defende fortalecimento da diáspora africana no Brasil e propõe novas iniciativas culturais e institucionais durante discurso no Togo.

O presidente da Fundação Palmares, João Jorge, fez um apelo contundente para o fortalecimento da diáspora africana no Brasil durante sua participação no 9º Congresso Pan-Africano, realizado em Lomé, no Togo. Em um discurso marcante, Jorge enfatizou a necessidade de consolidar os laços entre o continente africano e seus descendentes espalhados pelo mundo, com um foco especial na nação brasileira, que abriga a maior população negra fora da África.

O evento, que reuniu líderes africanos e representantes da diáspora, teve como pauta central o debate sobre a reparação histórica, a identidade cultural e a renovação do pan-africanismo. O Brasil marcou presença com uma delegação inédita e numerosa, demonstrando o crescente interesse em fortalecer essas conexões.

Conforme divulgado pelo G1, João Jorge ressaltou que elementos como a língua portuguesa, compartilhada entre o Brasil e diversos países africanos, a aliança regional entre as nações da diáspora e a criação de instituições dedicadas à união africana são cruciais para solidificar a presença e a influência da diáspora africana no Brasil.

Propostas para o Fortalecimento da Diáspora Africana

Em sua intervenção, João Jorge destacou a importância da reciprocidade no desenvolvimento entre a África e sua diáspora. “Nós precisamos ajudar a África a se desenvolver, mas o continente também pode ajudar a desenvolver a diáspora africana. Desenvolver com fé, com energia e com aquilo que somos especialistas, a criatividade cultural”, afirmou o presidente da Palmares.

Para tangibilizar essa união e combater as adversidades enfrentadas, Jorge propôs a criação de uma **bienal de cultura e artes da diáspora africana**. O objetivo principal seria promover os interesses da **liberdade religiosa** e oferecer um contraponto aos “ataques diários” sofridos pelas religiões de matriz africana.

“As religiões de matrizes africanas são violadas todos os dias por aqueles que governam países diferentes. É importante institucionalizar na diáspora africana em um centro ou instituição que dê um aspecto multilateral à união africana”, argumentou Jorge, sublinhando a necessidade de dar um caráter oficial e multilateral a essa união.

Um Passo Rumo a uma “ONU Negra”

Hélio Santos, um histórico militante do movimento negro e membro da delegação brasileira, comparou o congresso a um passo simbólico na direção de uma “ONU Negra”. Ele destacou que o evento contribui para fortalecer uma “constitucionalidade” que una os povos da diáspora africana, um conceito que visa criar uma estrutura formal para a representação e articulação global dos descendentes de africanos.

O 9º Congresso Pan-Africano, que teve o Brasil como convidado de honra, reuniu centenas de sacerdotes, sacerdotisas e praticantes de religiões africanas e afrodescendentes. Apresentações culturais, cantos, danças e rituais tradicionais emocionaram os presentes, evidenciando a rica diversidade espiritual da diáspora.

O Protagonismo Africano no Cenário Mundial

O congresso em Lomé, capital do Togo, também serviu como plataforma para reivindicar um **maior protagonismo do continente africano** no cenário internacional. Temas como justiça reparadora no combate ao racismo, a renovação do pan-africanismo, o fortalecimento do papel da África no cenário internacional, a reforma das instituições multilaterais e a restituição do patrimônio cultural africano foram amplamente debatidos.

Faure Essozimna Gnassingbé, ex-presidente de Togo, abriu o congresso com um discurso enfático: “A África já não é periférica, já não é silenciosa, é jovem, forte, aberta ao mundo e determinada a não ser mais moldada por outros”.

O babalawô Ivanir dos Santos, integrante da delegação brasileira, ressaltou o impacto do encontro: “Cria uma nova perspectiva na agenda por reparação, não só no Brasil, mas em toda a América Latina, no Caribe e no mundo”. Ele acredita que o evento poderá moldar uma nova articulação entre os países da África e a diáspora africana no Brasil, fortalecendo ainda mais os laços históricos e culturais.

A delegação brasileira, composta por mais de cem pessoas, entre ativistas do movimento negro, representantes da sociedade civil e pesquisadores, também apresentou os resultados de uma conferência sobre a diáspora africana nas Américas, realizada em agosto em Salvador, Bahia, reforçando o compromisso do Brasil com a causa pan-africana.