Racionamento de combustível em Cuba atinge pior nível em décadas, famílias cozinham com lenha e governo anuncia ‘opção zero’ diante do risco de ‘combustível zero’
Racionamento de combustível em Cuba força medidas de economia nacionais, limita uso a serviços essenciais, reduz trânsito e provoca maior uso de lenha e carvão nas casas
As ruas ainda mostram sinais de normalidade, mas, por trás dessa aparência, cresce o desabastecimento de combustível e a incerteza sobre o acesso à energia elétrica.
O governo anunciou um plano extraordinário de economia e resgatou a chamada “opção zero”, um mecanismo pensado nos anos 1990 para enfrentar um cenário de falta total de petróleo.
O presidente Miguel Díaz-Canel advertiu que “Vamos viver tempos difíceis” enquanto o país se prepara para o que chama de risco de “combustível zero”, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que a crise se agravou
A situação atual combina problemas crônicos de geração, usinas termoelétricas obsoletas e falta de divisas para comprar combustível no mercado internacional, com pressões externas recentes.
Após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, no dia 3 de janeiro, os Estados Unidos publicaram medidas que dificultam o acesso de Cuba a combustíveis, e o governo norte-americano ameaçou impor tarifas a países que enviassem petróleo à ilha.
Em meio a isso, houve o incêndio em uma refinaria de Havana, cuja causa está sendo investigada, e movimentações diplomáticas, incluindo anúncios sobre remessas russas de petróleo e envios humanitários do México.
Impacto direto no cotidiano das famílias
Na prática, muitos cubanos recorreram novamente à lenha e ao carvão para cozinhar, e vídeos e relatos nas redes mostram instruções para essas práticas, mas também alertam para a fuligem e a fumaça dentro de casa.
Relatos citados indicam cortes de eletricidade “de até 18 horas nas últimas semanas, em mais de uma ocasião” e redução do tráfego em avenidas importantes de Havana, o que limita deslocamentos e acesso a serviços.
As dificuldades financeiras ampliam o sofrimento, diante de um cenário em que o “salário mensal médio de 6.830 pesos cubanos (US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73)” compra pouco, já que “Uma garrafa de óleo custa cerca de US$ 2,50 (R$ 13) e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6 (R$ 31)”.
Medidas oficiais e desigualdade
O plano de Havana prevê racionamento da venda de combustível e priorização do uso para atividades econômicas imprescindíveis e serviços essenciais, além de incentivar trabalho remoto e aulas semipresenciais nas universidades.
Especialistas destacam que, embora o colapso percentual do produto interno bruto não atinja os níveis do início dos anos 1990, a economia nunca se recuperou totalmente do chamado Período Especial, e a combinação de crise com desigualdade faz com que a sensação atual pareça mais grave para muitos.
Enquanto alguns recebem remessas do exterior ou trabalham por conta própria, muitas famílias sobrevivem com rendimentos oficiais baixos, o que amplia o impacto do racionamento no dia a dia.
Cenário geopolítico e ajuda internacional
Além das ameaças de sanções e tarifas, o México enviou dois navios com “pouco mais de 800 toneladas” de alimentos como ajuda humanitária, e a presidente mexicana afirmou que “Mais 1.500 toneladas de alimentos serão enviadas em carregamentos futuros”.
O Brasil também avalia enviar ajuda humanitária, segundo relatos, mas sem definições sobre volume e logística. A pressão dos Estados Unidos inclui decisões que reverteram medidas de aproximação anteriores, e há debate sobre se a estratégia de asfixia econômica tem efeito sobre o governo ou apenas sobre a população.
Analistas alertam para dois cenários, um em que a pressão externa provoca uma reação política interna forte, e outro em que o governo aposta em suportar a crise até mudanças políticas no exterior, especialmente em contextos eleitorais.
O que esperar e como as pessoas se adaptam
Para muitos moradores, a resposta imediata inclui estocar água, lanternas e carregadores portáteis, adaptar cozinhas para uso de lenha e reorganizar rotinas de trabalho e estudo, diante de escolas com frequentes faltas de eletricidade.
A combinação de racionamento de combustível, cortes de luz prolongados e limitações econômicas cria um quadro de incerteza, com consequências sociais e humanitárias que dependem tanto de decisões internas quanto de movimentos internacionais.
O futuro próximo é incerto, e a população tenta conciliar hábito, criatividade e redes de apoio para atravessar uma fase que muitos comparam e consideram mais difícil que episódios anteriores.