Refinarias dos EUA enfrentam aumento súbito do petróleo venezuelano na Costa do Golfo, excesso de oferta pressiona preços e deixa milhões de barris sem comprador

Com importações quase triplicando e cargas pesadas sendo oferecidas com desconto, o petróleo venezuelano encontra resistência das refinarias americanas e estoques se acumulam

As refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos estão tendo dificuldade para absorver um aumento rápido nas exportações de petróleo venezuelano, provocado por um acordo de fornecimento firmado entre Caracas e Washington.

O excesso de oferta tem pressionado os preços e deixado parte dos volumes sem comprador, ao mesmo tempo em que algumas unidades precisam de ajustes para processar óleos mais pesados.

Operadores do mercado afirmam que, apesar das autorizações concedidas a trading houses e à Chevron, a demanda americana ainda é fraca e não é suficiente para escoar todo o fluxo recém-liberado,

conforme informação divulgada pelo g1

Oferta crescendo, demanda resistindo

O aumento das exportações gerou um descompasso claro entre oferta e demanda. Segundo dados de embarque citados por operadores, as exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia.

Antes das sanções de 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários da Venezuela. Esse volume, entretanto, caiu a zero em meados de 2025, após revogação de licenças, e agora retorna de forma gradual e concentrada, o que pesa sobre as refinarias da Costa do Golfo.

Um operador resumiu o problema, dizendo, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”, frase que reflete a relutância de alguns compradores em assumir os volumes disponíveis.

Preços, descontos e limitações de processamento

Além da relutância, as refinarias reclamam que os preços do petróleo venezuelano ainda são elevados frente a concorrentes pesados, como o canadense. Atualmente, cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.

Operadores destacam que, mesmo com descontos maiores, nem todas as refinarias têm capacidade técnica imediata para processar graus mais pesados, o que exige ajustes de unidades ou operações de blending.

Executivos de empresas também indicam limites práticos de processamento. O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos.

Na Chevron, a licença para exportar petróleo venezuelano aos EUA permitiu que a companhia elevasse seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro. Mike Wirth, presidente-executivo da Chevron, disse que a rede de refino da empresa consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela, o que indica necessidade de armazenar ou revender volumes excedentes.

Logística e estoques entre Caribe e portos dos EUA

Enquanto algumas cargas seguem direto para refinarias americanas, grande parte das exportações recentes tem sido direcionada a terminais de armazenamento no Caribe. Em janeiro, Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, principalmente para estoques regionais.

Parte desse volume ainda não foi vendida, segundo fontes de mercado, e relatórios de monitoramento mostram petroleiros fretados pela Chevron aguardando dias para descarregar em portos dos EUA, ou reduzindo a velocidade em trânsito para alongar datas de descarga.

No total, as exportações de petróleo da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, segundo os dados citados por operadores.

Alternativas internacionais e pressões políticas

Historicamente a China era o principal destino do petróleo venezuelano, mas compras foram interrompidas após a captura do presidente Nicolás Maduro, no início de janeiro. Autoridades americanas declararam que os EUA passariam a controlar as vendas da Venezuela por tempo indeterminado, medida rejeitada por Pequim.

PetroChina, que era a maior compradora, orientou comerciantes a suspender novas negociações enquanto avalia o cenário. Como alternativa, há sinalizações de interesse da Índia, e a indiana Reliance Industries informou que estuda importar petróleo da Venezuela.

Ao mesmo tempo, o acordo entre EUA e Índia anunciado por Donald Trump, que prevê redução de tarifas em troca de menor compra de petróleo russo e maior aquisição de petróleo americano, pode abrir espaço para que parte do petróleo venezuelano encontre demanda adicional no mercado asiático.

O que esperar a seguir

Analistas e operadores consultados apontam que levará tempo até que o mercado americano reabsorva plenamente o fluxo recente de petróleo venezuelano, devido a limitações técnicas das refinarias e à concorrência por preços com outros graus pesados.

Enquanto isso, parte do volume deverá ser armazenada, revendida ou direcionada a compradores alternativos, e a dinâmica de preços seguirá sensível a decisões políticas e às negociações entre trading houses, empresas como Chevron, Vitol e Trafigura, e governos envolvidos.