Refinarias dos EUA na Costa do Golfo têm dificuldade para absorver petróleo venezuelano após acordo de US$2 bi, Chevron, Vitol e Trafigura enfrentam excesso de oferta
O aumento rápido dos embarques criou excesso de oferta, pressionou preços e deixou volumes sem comprador, forçando refinarias, traders e governos a renegociar rotas e estoques
As refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos vêm enfrentando dificuldade para absorver o rápido aumento dos embarques de petróleo venezuelano depois do acordo de fornecimento de US$ 2 bilhões entre Caracas e Washington.
O excesso de oferta tem pressionado os preços e deixado parte dos volumes sem comprador, segundo operadores do mercado e dados de embarque, enquanto algumas refinarias relutam em receber cargas mais pesadas e caras de processar.
O quadro complica a estratégia do presidente Donald Trump de direcionar a maior parte do petróleo venezuelano ao mercado americano, com impactos na logística e nos contratos de trading, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que há excesso de oferta e quais são os preços praticados
Após a operação em Caracas que resultou na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, as tradings Vitol e Trafigura receberam licenças do governo dos EUA para negociar e vender milhões de barris de petróleo venezuelano, além da Chevron, que já tinha autorização.
O aumento simultâneo das exportações deixou operadores em busca de compradores suficientes, especialmente na Costa do Golfo, e, como um operador resumiu, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”.
Atualmente, cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro, o que reduz margens e torna o produto competitivo apenas em certas condições.
Capacidade das refinarias e necessidade de ajustes
As entradas de petróleo venezuelano nos EUA quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia no mês passado, segundo dados baseados no movimento de navios, enquanto, antes das sanções de 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários, volume que caiu a zero em meados de 2025.
Levará tempo até que as refinarias americanas voltem a operar em capacidade máxima com o petróleo venezuelano, porque algumas instalações precisam de ajustes para processar graus mais pesados. O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos.
A Chevron elevou seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro, e, segundo Mike Wirth, seu CEO, a rede de refino da empresa consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela, o que indica a necessidade de armazenar ou revender o excedente.
Concorrência global e destinos alternativos
Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, dos portos venezuelanos em janeiro, principalmente para terminais de armazenamento no Caribe, e grande parte desse volume ainda não foi vendida.
No total, as exportações de petróleo da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, enquanto a China, que era o principal destino, deixou de receber cargas desde a captura de Maduro no início de janeiro.
Autoridades americanas afirmaram que os EUA passariam a controlar as vendas de petróleo da Venezuela por tempo indeterminado, e Pequim rejeitou esse controle. A PetroChina orientou comerciantes a suspenderem novas negociações enquanto avalia o cenário, abrindo espaço para alternativas, como a Índia, onde empresas como a Reliance indicaram interesse em estudar importações venezuelanas.
Impactos práticos e próximos passos
Dados de monitoramento de navios mostram petroleiros fretados pela Chevron aguardando dias para descarregar em portos dos EUA ou reduzindo a velocidade de navegação, o que aumenta custos de frete e pressão sobre terminais e estoques.
Operadores avaliam que poderá levar meses até que o mercado encontre equilíbrio, com ajustes de preços, expansões de capacidade e possíveis vendas para destinos alternativos, caso a demanda doméstica americana permaneça fraca.
Fontes citadas na reportagem incluindo operadores do mercado, dados de embarque e declarações de executivos foram reportadas conforme informação divulgada pelo g1.