Superávit primário de R$ 86,9 bilhões em janeiro, arrecadação recorde em 32 anos e por que a meta fiscal de 2026 pode mascarar um rombo de R$ 23,3 bilhões
Apesar do resultado positivo no primeiro mês do ano, a combinação entre receitas altas e regras fiscais com tolerâncias e exclusões eleva o risco de um rombo real nas contas públicas
O governo publicou dados que mostram um resultado primário favorável, com forte contribuição da arrecadação federal, que atingiu patamar histórico.
O desempenho da receita foi apontado como a maior já registrada em todos os meses desde o início da série da Receita Federal, em 1995, o que corresponde a 32 anos de série histórica.
Esses números explicam parte do resultado primário, mas a leitura das regras fiscais sugere que o saldo real para 2026 pode ficar negativo, conforme informação divulgada pelo g1.
O que influenciou o resultado em janeiro
O Tesouro Nacional informou que o resultado primário em janeiro foi de R$ 86,9 bilhões, com melhora pequena em comparação ao mesmo mês do ano anterior, quando o valor positivo foi de R$ 88,84 bilhões, corrigido pela inflação.
A alta da arrecadação federal foi apontada como fator decisivo, e a pasta destacou que se trata da maior arrecadação mensal desde 1995, ou seja, em 32 anos.
O superávit primário ocorre quando as receitas com tributos e impostos ficam acima das despesas do governo, e esses valores não englobam os juros da dívida pública.
Como a meta fiscal para 2026 altera a leitura dos números
Para 2026, a meta central é de um saldo positivo de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões, com um intervalo de tolerância de 0,25 ponto percentual, o que formalmente permite considerar cumprida a meta com saldo zero, ou com superávit de R$ 68,6 bilhões.
O arcabouço fiscal aprovado em 2023 também permite que o governo exclua do cálculo até R$ 57,8 bilhões em despesas, recursos que podem ser usados para pagar, por exemplo, precatórios.
Por que pode haver um rombo de R$ 23,3 bilhões
Na prática, ao considerar as exclusões e ajustes permitidos, a previsão operacional é de que o governo apresente um déficit efetivo de R$ 23,3 bilhões em 2026, mesmo que, para fins da meta oficial, o resultado aparente seja positivo.
Se esse cenário se confirmar, as contas públicas devem ficar negativas ao longo do mandato, e as projeções indicam que as finanças podem permanecer deficitárias durante todo o terceiro mandato do presidente Lula.
O que observar adiante
O resultado forte em janeiro reflete crescimento econômico e aumento de impostos, mas não elimina a necessidade de acompanhamento das regras fiscais e das exclusões que afetam o resultado final.
Para analistas e cidadãos, a atenção deve se voltar para a evolução da arrecadação, para as escolhas de despesas que serão excluídas do cálculo e para o impacto dessas medidas no equilíbrio das contas ao longo de 2026.