Independência dos bancos centrais em risco, como o Fed, Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue enfrentam pressão política e o impacto na inflação

Pressão sobre decisões de juros e nomeações expõe riscos à independência dos bancos centrais, elevando inflação e fragilizando economias, com exemplos históricos e lições práticas

A discussão sobre a independência dos bancos centrais ganhou novo fôlego após a tentativa de demissão da diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Especialistas e governos ao redor do mundo têm alertado que quando bancos centrais cedem a interferências políticas, os resultados costumam ser piores, com inflação mais elevada e crescimento econômico mais lento.

Nos exemplos seguintes, veja como episódios em cinco países ilustram riscos e consequências de interferências políticas nas decisões monetárias, conforme informação divulgada pelo g1.

Estados Unidos, poder político e credibilidade do Fed

No caso americano, a história mostra tentativas de influenciar o banco central sem, contudo, demitir dirigentes por divergência de política monetária, até eventos recentes envolvendo Lisa Cook.

No passado, o ex-presidente Richard Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, a manter juros baixos para favorecer sua reeleição em 1972, ação que é vista como ponto de partida de um surto inflacionário, e só foi contida com medidas duras do sucessor Paul Volcker, que elevou os juros para dois dígitos.

Outro episódio foi em 1965, quando Lyndon Johnson exigiu o fim da alta dos juros do presidente do Fed, William McChesney Martin Jr., e chegou a agredi-lo fisicamente, segundo relatos históricos. Martin recusou inicialmente, por temer alta inflacionária, mas anos depois flexibilizou a política monetária em troca de promessas fiscais, o que, segundo ele, contribuiu para acelerar a inflação.

Turquia, demissões e fuga da moeda

No caso da Turquia, a interferência do Executivo teve efeitos claros e imediatos na economia. O presidente Recep Tayyip Erdogan, que se declara um inimigo dos juros, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por resistirem aos cortes que ele pedia.

O resultado foi o oposto do pretendido, com inflação em disparada e a lira em colapso, afetando o poder de compra das famílias em itens básicos como aluguel e alimentação.

Em 2023, Erdogan nomeou a executiva americana Hafize Gaye Erkan, que elevou rapidamente a taxa básica de juros de 8,5% para 45%, e seu sucessor, Fatih Karahan, apertou ainda mais a política antes de iniciar um alívio.

Segundo os dados citados, a inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos, mostrando que restaurar credibilidade e estabilidade leva tempo.

Argentina, nacionalização e ciclos de inflação

A nacionalização do banco central pelo presidente Juan Perón, em 1946, marcou o início de décadas de crises recorrentes na Argentina. Com o banco central subordinado ao Executivo, o país recorreu frequentemente à emissão de moeda para financiar gastos, desencadeando ondas de inflação alta e episódios de hiperinflação.

Desde 2000, a sucessão de presidentes do banco central foi marcada por interferências e afastamentos por divergências com o governo. Um caso citado foi o de Martín Redrado, demitido em 2010 após recusar executar plano de usar reservas cambiais para pagar dívidas da então presidente Cristina Fernández de Kirchner.

Venezuela e Zimbábue, hiperinflação e colapso monetário

Na Venezuela, embora a Constituição garanta certa independência ao banco central e proíba financiamento direto de déficits, o Executivo avançou sobre a instituição e passou a controlar a indicação de sua direção.

Com a queda dos preços do petróleo em 2014, o banco central venezuelano emitiu moeda para financiar déficits, contribuindo para uma hiperinflação que atingiu pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000%, de acordo com as informações citadas.

No Zimbábue, decisões semelhantes de financiar gastos do governo por meio da emissão monetária também levaram à hiperinflação. Em janeiro de 2009, o então presidente do banco central, Gideon Gono, emitiu uma cédula de 100 trilhões de dólares, símbolo do colapso monetário vivido pelo país.

Lições práticas e por que a independência importa

Decadas de estudos acadêmicos indicam que bancos centrais que mantêm autonomia tendem a controlar melhor a inflação e apoiar crescimento sustentável. Quando políticos impõem metas de curto prazo ou pressionam por cortes de juros, o custo costuma ser maior inflação e perda de confiança.

Restaurar credibilidade demanda ações claras e, muitas vezes, medidas impopulares, como aumentos de juros para conter expectativas inflacionárias, como mostrou o ciclo americano com Paul Volcker.

Para proteger a independência dos bancos centrais, especialistas defendem mandatos claros, nomeações técnicas, transparência nas decisões e mecanismos legais que limitem a influência direta do Executivo nas políticas monetárias.

Em resumo, os exemplos do Fed e dos bancos centrais da Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue mostram que a interferência política na política monetária costuma resultar em inflação mais alta e dano econômico, e que recuperar credibilidade leva tempo e medidas firmes.