Por que o dólar caiu ao menor nível em quatro anos, pode recuar mais e o que isso muda para preços, exportações e o Fed

Dólar registra mínima de quatro anos, perde cerca de 3% em uma semana e analistas apontam que a trajetória pode continuar, afetando consumo e política econômica

O dólar americano caiu para o seu ponto mais baixo dos últimos quatro anos diante de uma cesta de moedas e recuou em relação ao euro e à libra, com uma perda próxima a 3% em cerca de uma semana.

Movimentos recentes vinculados a tensões comerciais, decisões políticas e fluxos de investimento reacenderam dúvidas sobre a força da moeda, e especialistas projetam que essa queda pode ser apenas o começo.

No texto a seguir explicamos as causas, os riscos para preços domésticos nos Estados Unidos e os cenários que podem levar a nova desvalorização do dólar, conforme informação divulgada pelo g1.

O que aconteceu com o dólar

Nas últimas semanas a moeda americana atingiu níveis que não eram vistos em quatro anos, e em algumas comparações com o euro e a libra a queda foi o maior movimento em muitos anos.

Em 2025 o índice do dólar havia sofrido fortes oscilações, e no ano passado o indicador que acompanha a cotação frente a uma cesta de moedas caiu em quase 10%, sendo o pior desempenho desde 2017.

Mais recentemente, a desvalorização acelerou após anúncios e escaladas nas disputas comerciais e geopolíticas, e o mercado passou a apostar que o dólar pode se enfraquecer ainda mais neste ano.

Por que a moeda está caindo

Analistas ligam a queda a uma combinação de fatores, entre eles a incerteza sobre políticas do governo americano, movimentos de investidores em busca de retornos no exterior e episódios específicos que abalaram a confiança.

Robin Brooks, do Instituto Brookings, disse, “Na minha opinião, os mercados estão reagindo à natureza meio que irregular das políticas deste governo, as escaladas e atenuações”.

O estrategista Thierry Wizman, do grupo Macquarie, observou que a rápida escalada das tensões comerciais em relação à Groenlândia “Acho que isso desencorajou as pessoas”, e que apostas sobre maior volatilidade do dólar também cresceram.

Impactos sobre preços e investimentos

Um dólar mais fraco reduz o poder de compra dos americanos nos gastos com importados, e analistas alertam que, se a tendência continuar, isso pode empurrar a inflação interna para cima por meio do aumento dos preços de bens importados.

Parte do capital que deixou o mercado de dólar ajudou a impulsionar ativos considerados refúgio, o que explica, em parte, a alta do ouro: “a cotação do metal dobrou no ano passado”, enquanto moedas como o euro e a libra avançaram em janeiro.

Dados de consultorias mostram que moedas de 11 entre 19 mercados emergentes acompanhados pela Oxford Economics “se valorizaram em mais de 1%” no mesmo período, evidenciando realocação global de recursos.

O que os mercados esperam e o papel do governo americano

Chris Turner, chefe global de pesquisa de mercados financeiros do ING, afirmou, “A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano”.

O ING projeta que o dólar pode cair mais entre 4% a 5% ao longo do ano, à medida que aumenta a perspectiva de crescimento econômico fora dos Estados Unidos e investidores buscam retornos em outras praças.

Ao mesmo tempo, há sinais mistos: o mercado de ações americano segue em níveis elevados e a venda de ativos dos EUA tem sido relativamente limitada, indicando que a retirada global ainda está concentrada na moeda, mais do que em investimentos em títulos ou ações.

Política, Fed e cenário futuro

Parte da trajetória do dólar dependerá do Federal Reserve e do ritmo de cortes de juros. Caso os juros nos EUA sejam reduzidos mais rápido, a moeda tende a se enfraquecer, pois investidores buscariam retornos maiores no exterior.

O governo Trump, segundo declarações públicas, vê vantagens em um dólar mais fraco para aumentar a competitividade das exportações americanas. Em julho o presidente disse, “Não parece bom, mas você ganha muito mais dinheiro com um dólar mais fraco… do que com um dólar forte”.

Além disso, a indicação do economista Kevin Warsh para chefiar o Fed gerou atenção, com o presidente afirmando sobre o indicado, “Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor. Ele é perfeito para o papel e nunca decepciona”. A nomeação ainda precisa de confirmação pelo Senado.

Comentários do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, negando intervenção para ajudar o Japão, chegaram a estabilizar o mercado, mas a incerteza sobre futuras ações do governo permanece, mantendo a atenção dos investidores.

Resumo e riscos a acompanhar

O enfraquecimento do dólar começa a afetar preços, investimentos e a percepção sobre riscos, mas ainda não configura uma saída ampla de capitais dos Estados Unidos, segundo analistas.

Se a queda continuar por motivos econômicos sólidos, empresas exportadoras podem se beneficiar, porém se o declínio refletir um juízo negativo do mercado sobre políticas governamentais, isso pode sinalizar problemas maiores para a economia americana.

Em suma, a trajetória do dólar nos próximos meses dependerá de decisões de política monetária, ações do governo americano e do apetite global por ativos dos EUA, e o movimento merece acompanhamento atento pelos efeitos diretos na inflação, em importações e nos mercados globais.