Mercosul e China, Brasil sinaliza abertura para acordo parcial para driblar tarifas dos EUA, proteger indústria e ampliar acesso ao mercado chinês
Governo avalia pactos parciais entre Mercosul e China para avançar em cotas, regras sanitárias e procedimentos alfandegários diante de novo cenário global
O governo brasileiro passou a discutir a possibilidade de um acordo parcial entre Mercosul e China, abrindo espaço para negociações limitadas que não envolvam um tratado amplo e definitivo.
A mudança, segundo autoridades, responde à combinação entre o avanço de investimentos chineses no Brasil e o redesenho de cadeias globais provocado por tarifas dos Estados Unidos.
Essas avaliações internas, e o possível desenho de um pacto restrito a faixas tarifárias e regras técnicas, ganharam força nas últimas semanas, conforme informação divulgada pelo g1
Por que o Brasil revisa sua postura
Historicamente, o país rejeitou negociações formais com Pequim por receio de que a capacidade industrial chinesa prejudicasse fabricantes nacionais.
Agora, integrantes do governo consideram que, mesmo sem um acordo amplo à vista, um pacto parcial pode ser uma alternativa para diversificar parceiros comerciais, preservar investimentos e ganhar espaço no mercado chinês.
Em avaliação de um alto funcionário ouvido pelo g1, o que se abre é um “novo cenário global”, e “Precisamos diversificar nossos parceiros”, afirma o servidor, que pediu anonimato devido à sensibilidade do tema.
O que poderia entrar em um acordo parcial
Fontes que participam das discussões internas indicam que o bloco poderia avançar em itens específicos, como cotas de importação, procedimentos alfandegários e regras sanitárias e de segurança.
Essas frentes permitiriam ao Mercosul e China incrementar o comércio em áreas estratégicas, sem expor toda a indústria doméstica a uma abertura irrestrita.
Um outro representante do governo classificou o tema como “altamente complexo” e disse que ainda é cedo para detalhar quais setores seriam contemplados.
Desafios políticos e diplomáticos no bloco
Qualquer acordo exige consenso entre os membros do Mercosul, o que impõe desafios. O Paraguai mantém relações diplomáticas com Taiwan, o que complica, embora não inviabilize, negociações com Pequim.
Em 2025, o Paraguai importou US$ 6,12 bilhões em mercadorias da China, segundo dados citados pelo g1, e participou das conversas entre o bloco e Pequim.
O presidente paraguaio, Santiago Peña, disse que não se opõe a um acordo, desde que seja respeitado o direito do país de manter relações diplomáticas com Taiwan, posição que precisa ser conciliada com a intenção de diálogo entre os integrantes do Mercosul.
Relação entre Argentina, EUA e China influencia o tempo das negociações
A Argentina é outro nó na costura, já que, desde 2023, com Javier Milei na presidência, Buenos Aires se aproximou de Washington, e o governo argentino tem buscado fortalecer laços com os Estados Unidos.
Milei negociou um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões com o Tesouro americano, e especialistas avaliam que um movimento amplo coordenado com a China pode encontrar resistência em Buenos Aires, ao menos no curto prazo.
Mesmo com essa aproximação, a China segue sendo um importante credor da Argentina e um dos maiores compradores de seus produtos agrícolas, o que mantém o interesse por acordos comerciais, ainda que com cuidado político.
Contexto externo e oportunidades
Analistas apontam que as tarifas impostas pelos EUA a parceiros comerciais têm reconfigurado relações comerciais globais e incentivado Pequim a buscar novas parcerias regionais.
Para o Brasil, um acordo parcial com a China poderia preservar ganhos para setores exportadores e consolidar investimentos chineses no país, ao mesmo tempo em que protege indústrias sensíveis por meio de mecanismos específicos.
Especialistas citados pelo g1 dizem que ideias antes consideradas inviáveis hoje podem avançar por causa dessa nova dinâmica, e que o Mercosul e China têm espaço para negociar em etapas, começando por temas técnicos que abrem mercado sem um choque frontal à indústria doméstica.
O governo brasileiro mantém cautela, e autoridades ressaltam que qualquer avanço dependerá da construção de consenso entre os membros do blocos e do desenho final das regras, que precisa conciliar interesses comerciais e de soberania industrial.